O rock cuiabano – memória, trajetória, resistência, altos e baixos

Cultura

Fonte: entretê

O Dia do Rock está terminando e talvez você já esteja curtindo suas músicas prediletas do rock nacional e do mundial, mas o Entretê vai fechar o dia com o Rock Cuiabano! Quando você pensa em rock de tchapa e cruz, quais nomes vêm à sua cabeça? Bandas autorais? Bandas covers? Galera do metal, do punk rock, das misturas bem brasileiras?

Nesta primeira reportagem especial, o Entretê vai se inspirar no Rauzito (Toca Raul!) e vai registrar “o início, o fim e o meio”, através de algumas bandas – poucas e infinitas, porque é impossível registrar toda diversidade do rock cuiabano.

Em 1964, no auge do iê-iê-iê, Cuiabá viu nascer a primeira banda de rock – Jacildo e Seus Rapazes, com gigantes da cultura local: além do Jacildo, claro, os saudosos Bolinha, Juarez Silva, Lowenil, Hélio Japonês e o único integrante ainda vivo: Neurozito (ou Neurô, como preferiam os fãs). Todas as memórias sobre a banda registram a aventura dos integrantes rumo à São Paulo, em uma Kombi, para gravar o disco Lenha – Brasa e Bronca – não por acaso, o nome do documentário lançado em abril deste ano pela banda – e fã – Imitáveis, com recursos da Lei Aldir Blanc em Cuiabá.

O documentário “Lenha, Brasa e Bronca – A história de Jacildo e Seus Rapazes”, disponível na íntegra no Youtube, foi um dos últimos projetos da Imitáveis, que, tamanho o envolvimento na pesquisa para a produção do longa, lançou também, no último dia 25, quatro videoclipes com canções da banda cuiabana inspiradora, disponíveis no canal dela

Não é difícil entender a paixão da Imitáveis pela banda cuiabana que abriu caminhos 50 anos antes. Oras, o grupo da atualidade, já dos anos 2010, começou a trajetória fazendo releitura da Jovem Guarda, cantando Roberto Carlos, o Tremendão, Wanderléa, Jerry Adriani e tantos outros. “A gente tem um amor incondicional pela Jacildo e Seus Rapazes, que foi a primeira banda de rock de Mato Grosso”, resume Dennis Rodrigues, vocalista da Imitáveis.

Daria para escrever mais alguns parágrafos sobre os mais de 600 shows da Imitáveis pelo país, sobre os ídolos com quem ela dividiu palco ou sobre projetos na pandemia, mas vamos voltar para o ‘meio’, o rock cuiabano nos anos 1980.

A ‘Jacildo’ foi grande referência pelas décadas de 1960 e 1970, mas na década seguinte, Cuiabá eclodiu em bandas com inspirações diversas do rock: a SS, a Blokeio Mental, a Kaballah e o Caximir.

O Bando Caximir
O Caximir não era uma banda, era um bando. Que fez parte da retomada do rock nos anos 1980. “O Caximir surgiu muito forte na época. Tinha uma pegada múltipla, multicultural, com jornalzinho impresso em mesa de bar, com invasões poéticas nos lugares”, narra o jornalista, músico, entusiasta cultural (e tantos outros papéis) Eduardo Ferreira.

“Foi uma época muito rica no rock, um período muito fértil e eu sinto que o rock aqui teve vários momentos de ascensão e queda, um sobe e desce danado. O Caximir fez parte dessa história com muita propriedade e com muita diversidade cultural. A gente flertava muito com as vanguardas, tinha uma postura bem artística”, registrou. Foi “um grupo que mexeu muito com as estruturas daqui na época. Começamos com performance e virou banda com performance e teatro e sempre teve uma postura muito anárquica e poética. A gente levava a poesia na frente e o rock’n’roll junto”.

O bando atuou entre 1982 e 1989, parou por 10 anos e seguiu entre 1999 e 2007. Gravou dois CD e um vinil. “O Caximir tem muita história, tem uma bagagem quase impossível de carregar”, contou Eduardo – e quase impossível de contar em poucos parágrafos, acrescenta-se.

A GTW
Uma banda tão cuiabana, que registrou no próprio nome a linha do ônibus que levava os integrantes para o bairro onde ensaiavam: o Grande Terceiro. Ou, na ‘língua-mãe’ do rock: o Great Third.

A brincadeira avançou, fez-se uma leitura da posição geopolítica brasileira e registrou-se: the Great Third World, o Grande Terceiro Mundo. Não importa se a tradução está correta, o importante é a potência e sincronicidade da primeira banda de Punk Rock de Cuiabá, com uma mulher no vocal – a Rosi Pando, lá nos idos de 1988.

A GTW já teve várias formações, mas sempre com a voz de Rosi Pando, seguiu de forma ininterrupta até 1998 e ficou “suspensa” até 2018.

Até quando Joe Fagundes, guitarrista, resolveu fazer um tributo aos 30 anos de formação da banda. Mas Rosi Pando não morava mais em Cuiabá desde o fim dos anos 1990.

Joe, então, pensou um motivo mais ‘forte’ para trazê-la à HellCity e “inventou” de fazer um documentário sobre aquela banda que tanto influenciou o cenário regional.

Bom, para falar da GTW, é necessária uma matéria inteira. Mais do que isso, para falar do documentário “Entre Mortos e Feridos, Salvaram-se Quase Todos – GTW 30 Anos Depois”, sobre as parcerias para realizá-lo e os frutos delas e sobre a “retomada” da banda, precisa-se de uma matéria inteira.

Então, aguardem a segunda parte desta reportagem. Enquanto isso, assistam ao documentário, na íntegra no Youtube. Os anfitriões Joe Fagundes e Rosi Pando têm muito a contar.

Escola do Rock
A geração dos anos 1980 deixou muitas sementes, que estão aí na ativa. Jomar Brittes é um deles. Ainda adolescente, no início dos anos 1990, se apaixonou pelo rock, cantou em eventos escolares, em parcerias com outras referências contemporâneas, como Jean Bass, da Power Rock Trio; e esteve entre 1996 e 1998 na eterna Blokeio Mental.

Formou a banda Karrascos – de 2001 a 2007 – grupo que, inclusive lhe rendeu o “sobrenome” pelo qual ainda hoje é conhecido; e, desde 2007, está na Sr. Infame que, neste Dia do Rock, anunciou o lançamento de um novo single para o próximo dia 20.

Jomar Karrasco, inclusive, fez escola em casa. “Eu amo rock e tenho muito orgulho de minha filha, de 15 anos, estar aprendendo a tocar guitarra”, conta.

Ser roquenrol
A reportagem perguntou ao guru Eduardo Ferreira o que é “ser rock’n’roll” e a resposta é uma aula que nem dá para ser editada. Então, com a palavra, Eduardo Ferreira:

“É estar plugado na eletricidade do som… ou na velocidade da contraluz. Contraluz, recorte, sombra.

Mas roquenrol é um comportamento, um modo de vida, associado ao som, a uma cultura de rebeldia, de contracultura, um exercício de libertação e experimentação cultural.

Está acima das nações. É uma cultura mundial incorporada no mundo inteiro. Apesar de ter o berço ali na América [do Norte] e na Inglaterra, o Rock é mundial, não tem local. Ele é global mesmo, ele tá na Finlândia, no Japão, em Cuiabá, em Nova Iorque, em Londres…

Roquenrol é isso: estar antenado nas possibilidades libertárias e experimentalistas da vida e da cultura, da arte.

Existe uma cultura rock muito forte! Já tiveram momentos de altos e baixos, mas ela permanece viva. ‘Tá um pouco decadente agora, não tem muito o que comemorar. E acredito que vai sempre renascer. A postura roquenrol ‘ta aí também misturada com outras formas de comportamento e de música. Rock é cultura. Rock é contracultura”.

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